Acordei com o sol a aquecer-me a cara...
O céu, estava um pouco nublado e duvidoso, o sol
parecia confuso, por vezes escondia-se atrás de uma nuvem como uma criança
envergonhada, por outro mostrava-se como um valente pirata.
Então voltei à minha realidade...
Hoje é o dia que a minha vida vai mudar completamente,
porque será a minha operação, sim... eu estou num quarto de hospital e serei
hoje operada ao coração...
Quando me
disseram há uns meses atrás que o meu coração estava fraco, não consegui
acreditar...
Sentia-me tão forte e capaz de tudo, e dizia-me que o
coração que tenho no peito estava fraco?! Eu bem sabia que o meu órgão que
bombeava sangue estava a funcionar e bem demais! Tantas eram as vezes que
sentia o coração a exercer o seu trabalho nas horas e momentos que tinha de
apresentar o trabalho de Filosofia em frente da turma. Eu bem tentava acalmar
os nervos que me cresciam desde os pés à cabeça, mas este coração doente (como
dizem) fazia-me sempre corar e parecer o extintor da sala...
Olhei para o
relógio barulhento, de um branco sujo, que estava pendurado na parede do quarto em que estou internada à um mês.
"Quanto tempo me restará?" - pensava
enquanto olhava para aquele relógio que não me deixava dormir de noite.
Eu olhava fixamente para o relógio, mas não sabia que
horas ele marcava, com os seus ponteiros negros, não queria saber que horas
eram, só queria ouvir o ponteiro dos segundos, mas mal conseguia ouvir o
barulho que à noite era tão irritante, pois do lado de fora do meu quarto
ouvia-se macas já velhas a ranger, médicos e enfermeiros a trabalhar com
afinco, outros, nem tanto e por vezes ouvia-se alguns desses médicos e
enfermeiros a combinar no que fariam a seguir ao turno deles.
E eu... a concentrar-me, ou a tentar fazê-lo, no
barulho do relógio branco sujo, da minha prisão de pensamentos.
Desde que entrei neste quarto de hospital, e fiquei
aqui, durante um mês, eu nunca mais sonhei, nem acordada nem quando dormia, já
não tinha objetivos, nem sonhos... Também já não sorria... As únicas coisas que
eu agora fazia era pensar em quanto tempo me restava.
Neste momento, a minha mãe entrou no quarto com um
grande sorriso no rosto.
Ela
cumprimentou-me com um beijo na testa e falou-me sobre a semana dela. O
meu pai estava a trabalhar, como sempre, desde que eu vim para este quarto de
hospital, ele ainda não me visitou, mas eu já estou habituada a viver só com a
minha mãe.
-Achas que vou sobreviver? - não sei porque fiz esta
pergunta, o meu cérebro fez com que saísse de forma verbal. A minha mãe estava
atónita a olhar para mim, parecia que tinha visto um fantasma ou uma alma
penada.
Quando a minha mãe ia falar, talvez para responder à
minha pergunta, o médico que está responsável pelo meu caso, entrou.
É um homem alto e velho, tem já os seus setenta ou
oitenta anos, nota-se o grande amor que tem ao seu trabalho e dedica-se a cem
por cento a todos os seus pacientes e aos seus casos.
O médico tinha vindo anunciar que era hora de começar
o procedimento pré-operação.
Recebi a anestesia, senti o meu corpo a ficar imóvel
mas continuava acordada, eu sabia que não era normal, pois deveria adormecer, o
meu cérebro lutava contra a anestesia e não me deixava fechar os olhos. Via
todos os médicos junto à minha cama, já os via desfocados, mas conseguia ouvir
as suas exclamações de surpresa pelo meu corpo estar a conseguir combatê-la
durante tanto tempo.
Entrei no bloco. Lembro-me apenas de ter pouca luz e
essa era de um azul escuro.
Antes de finalmente adormecer, pensei que quando fechasse
os olhos não os voltaria a abrir, depois senti uma luz forte na cara e logo
adormeci.
Voltei a abrir os olhos, já estava no meu quarto, a
minha mãe não estava lá.
Mil pensamentos percorreram o meu cérebro.
Sacudi a cabeça rapidamente como se assim os
pensamentos fossem projetados para longe.
Olhei, pela centésima vez hoje, para o relógio do
quarto de hospital, desde a operação tinham passado cerca de oito horas.
Estarei bem agora? Será que me darão a notícia de que
o meu coração ainda está doente?
Sentir-me-ei forte na mesma como antes, mesmo quando
diziam que o meu coração estava fraco?
Estava a pensar em mais mil e uma perguntas quando uma
se destacou mais na minha mente.
"Estarei na Terra ou no Céu? Terei morrido e os
quartos no céu são assim?"
Neste instante, o médico e a minha mãe entraram no
quarto, interrompendo os meus pensamentos macabros.
Disseram, especialmente o médico, que tinha corrido
tudo bem, voltaram a sair e eu tentei voltar aos meus pensamentos, mas mais
descansada.
Amanhã, e nos próximos dias ficarei aqui, depois irei
para casa e só daqui a quase dois meses é que poderei voltar ao colégio...
Que saudades da minha casa, do meu quarto...
Nunca pensei sequer pensar nisto mas também tenho uma
certa saudade da escola...
Adormeço...
No meio do sono oiço a minha mãe a falar ao telemóvel,
ela chorava e culpava o meu pai de ele não ser próximo da família e dar mais
importância ao trabalho. Ela também diz que agora é tarde e que não pôde sequer
despedir-se pois estava a trabalhar.
Só neste
instante, percebo que não adormeci nem que durmo pois não consigo abrir os
olhos. Uma lágrima ainda consegue escorrer da minha cara e oiço um enfermeiro a
falar com o médico que era responsável pelo meu caso.
-Hora do óbito, duas e trinta e sete da manhã.
Ouve silêncio durante um tempo. O último som que oiço
antes de adormecer de vez é o choro do meu pai ao pé da minha cama com uma
mistura de falta de fôlego, parecendo que correu... Não interessa...
Fechei os olhos com força, sinto um choque no coração
recém-tratado e desapareço para sempre...
Afinal, este dia mudou mesmo a minha vida...
Ema Gomes, Nº 6




